Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

Noite fria...

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Numa gélida noite de inverno, na cidade do Porto, numa das mais movimentadas ruas

da cidade, à porta de uma pastelaria um grupo de pessoas, talvez cinco ou seis,

indiferentes ou não ao frio, aguardavam que o proprietário depois de arrumar a casa lhe

desse os bolos ou sandes que tivessem sobrado da venda desse dia.

 

Naquele grupo, maioritariamente homens, alguns deles "sem-abrigo", estava uma

senhora, bem vestida, com os "olhos no chão", assim que olhou em frente, vi um olhar

triste e vago, um olhar angustiado, quando pressentiu que estava a ser observada,

baixou os olhos e virou-se ligeiramente para a parede, continuei o meu caminho, ficou na

retina aquele olhar angustiante, sofrido, talvez cheio de dor e certamente também de frio.

 

Caminhei até ao hotel pensando naquela gente, pensando naquele olhar sofrido, entrei

no calor e no conforto de quarto de hotel, liguei a televisão, fiz zaping para não fixar canal

algum, fixei o pensamento naquelas pessoas, quanta necessidade, pessoas que

passam fome quando sabemos de tanto desperdício, lá fora, a noite estava ainda mais

gélida, dormi mal, muito mal, porque ninguém pode ou ninguém devia ficar indiferente,

mas não é assim, as pessoas passam apressadas, quase numa correria, indiferentes a

que está e como está, é a indiferença que nos faz uma sociedade cada vez mais

altruísta, cada vez mais fechada em redor de sim mesmo, cada vez mais egoísta.  

 

Na noite seguinte, após o jantar, caminhei pela mesma rua, talvez um pouco mais tarde,

pois as pessoas que estiveram à porta da pastelaria, começavam a debandar e desta

vez, de mãos vazias, ao cruzar-me com a senhora de olhar triste e vago, dirigi-lhe umas

palavras, parou para ouvir, ficou estática, não respondeu, após insistir, disse-me que

tinha vergonha de ter fome, disse-me que não era “sem abrigo”, que trabalhava doze

horas por dia, e o que ganhava era para pagar a renda da casa, a agua, gás e luz e a

comida dos filhos, esses sim, esses, mesmo pouco, jantavam, ela, como mãe, podia

passar fome, os filhos é que não podiam ir para a cama de barriga vazia!... Trabalhava

muitas horas para receber 485 €uros mês, sentia-se explorada, mas era uma pessoa

digna, lutava por uma vida melhor, estava consciente das dificuldades do dia-a-dia, mas

era uma pessoa séria que nunca entraria em caminhos fáceis para arranjar dinheiro,

preferia passar fome e sentir a vergonha de mendigar o que sobrava da venda do dia,

naquela pastelaria e se nada tivesse dali, ir para casa e mais tarde, descer à rua para ir

á carrinha que distribui comida aos sem abrigo.

 

Disse-lhe que lhe oferecia o jantar, recusou, insisti, aceitou comer uma sopa e uma

sande, comendo isto, saciava a fome e ainda podia levar para os filhos, levou para casa,

alguns bolos, porque as crianças não podem passar fome….  


publicado por O Solitário às 21:21
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