Domingo, 6 de Dezembro de 2009

FERNÂO CAPELO GAIVOTA

 

 

 

  A maior parte das gaivotas não se querem incomodar a aprender mais do que os rudimentos do voo, como ir da costa à comida e voltar.   Para a maior parte das gaivotas, o que importa não é saber voar, mas comer, como de resto a maior parte dos seres humanos. Porém,   para esta gaivota, o mais importante não era comer, mas sim voar, saber mais, conhecer mais ‘alto’.

Mais que tudo, Fernão Capelo Gaivota adorava voar.   Mas, como veio a descobrir, esta maneira de pensar e de ser diferente não o fazia muito popular entre as outras aves, em especial dos 'chefes do bando' que o observavam desconfiados.   Até os próprios pais se sentiam desanimados ao verem que Fernão passava os dias sozinho, a experimentar, a cogitar, fazendo centenas de voos... 
 
Não sabia porquê, mas, por exemplo, quando voava sobre a água a uma altitude inferior ao comprimento das suas asas abertas, conseguia manter-se no ar durante mais tempo e com menos esforço. Os seus voos não acabavam com o habitual mergulhar de patas abertas no mar, mas com um pousar leve, de patas bem unidas ao corpo. Quando começou a pousar em pé sobre a praia e depois a medir o comprimento da aterragem, os pais ficaram deveras preocupados.  
 
-Porquê? Fernão, porquê? - Perguntava-lhe a mãe - Por que não podes ser como o resto do bando?   Por que não deixas os voos rasos para os pelicanos e para o albatroz?   
Por que não comes? Filho, és só penas e osso!  
   
- Não me importo de ser só penas e ossos, mãe. Só quero saber aquilo que consigo fazer no ar,  e o que não consigo, mais nada.   Só quero saber.  
 
- Ouve lá, Fernão  - disse-lhe o pai com bondade -  O Inverno aproxima-se, haverápoucos barcos e o peixe das superfícies irá para zonas mais profundas. Essa história dos voos está  muito bem, mas sabes que não te podes alimentar só disso. Se tens mesmo de estudar, então   estuda acomidae a forma de a conseguir. Não te esqueças que a razão por que voas é comer.
 
Fernão baixou a cabeça, obediente. Durante os dias seguintes tentou comportar-se como todas as outras gaivotas, tentou mesmo a sério, disputando com o resto do bando a comida dos pontões e dos barcos de pesca, mergulhando para apanhar pedaços de peixes e pão. Mas não conseguiu.
 
"É tão inútil", pensou, deixando cair deliberadamente uma anchova, que lhe custara bastante a apanhar, aos pés de uma velha gaivota que o perseguia.   Poderia ter passado todo este tempo a aprender a voar...
E há tanto para aprender!                

 

Fotos JS e texto do livro Fernão Capelo Gaivota, romance de Richard Bach


publicado por O Solitário às 23:02
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De Margarida a 7 de Dezembro de 2009 às 21:13
Lindo este livro e maravilhosa a ilustração.Parabens pelo post.
Um beijinho desta Margarida gaivota


De O Solitário a 8 de Dezembro de 2009 às 23:08
Olá Margarida

Obrigado pela visita e pelo simpático comentário.

beijo
Solitário


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