Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Relendo...Eça de Queirós

 

 

CARTAS D’AMOR
 
Primeira Carta a Madame de Jouarre
 
Minha querida madrinha.
 
Ontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando consigo, por debaixo do atroz retrato da marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe pressentir, apesar de tão indolentemente enterrada num divã, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de deusa e de ave. Bem diferente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplêndido peso de uma estátua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e dinâmico (de Diana), provém estas garatujas.
 
Quem era? Suponho que nos chegou do fundo da província, de algum velho castelo do Anjou com erva nos fossos, porque me não lembro de Ter encontrado em Paris aqueles cabelos fabulosamente louros como o sol de Londres em Dezembro – nem aqueles ombros decaídos, dolentes, angélicos, imitados de uma madona de Mantegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do “Lírio no Vale” e dos corações incompreendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarelas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste.
 
Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegíaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surpreendi-lhe depois uma faísca de vivacidade sensível – que a datava do século XVIII. Dirá minha madrinha: “Como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalizando?” É que voltei. Voltei, e da ombreira da porta readmirei os ombros de velas por trás, entre as orquídeas, nimbava de ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos – dos olhos finos e lânguidos... Olhos finos e lânguidos. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade.
 
Por que é que não me adiantei, e não pedi uma “ apresentação?” Nem sei. Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta sedução ao Palácio das Fadas, nos tempos do rei Artur? Não sabe. Resultados de não ler Tennyson...
 
Pois era a imensidade de anos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque oferecia a emoção inesperada de um flirt, de uma batalha, ou de um banquete... (Com que mórbida propensão acordei hoje para o estilo asiático!) O fato é que, depois da contemplação junto à ombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tirana. Mas por entre a banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame de Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos de Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e lânguidos. Não há senão o homem, entre os animais, para misturar a languidez de um olhar fino a fatias de foie-gras.
 
 Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seríamos nós desejados pelo “efêmero feminino” se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção da matéria que há no homem faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de ideal, que nele há também – para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura – foram os “Sonetos”. E quando Romeu, já com um pé na escada de seda, se demorava, exalando o seu êxtase em invocações à noite e à Lua – Julieta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: “Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus!” Este detalhe não vem em Shakespeare – mas é comprovado por toda a Renascença. Não me amaldiçoe por esta sinceridade de meridional céptico, e mande-me dizer que nome tem, na paróquia, a loura castelã do Anjou.
 
A propósito de castelos: cartas de Portugal anunciam-me que o quiosque por mim mandado erguer em Sintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como “seu pensadoiro e retiro nas horas de sesta” – abateu. Três mil e oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende à ruína num país de ruínas.
 
O arquitecto que o construiu é deputado, e escreve no “Jornal da Tarde” estudos melancólicos sobre as Finanças! O meu procurador em Sintra aconselha agora, para reedificar o quiosque, um estimável rapaz, de boa família, que entende de construções e que é empregado na procuradoria-geral da Coroa! Talvez se eu necessitasse um jurisconsulto, me propusessem um trolha. É com estes elementos alegres, que nós procuramos restaurar o nosso império de África!
 
Servo humilde e devoto.
 
Fradique
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publicado por O Solitário às 06:51
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